A Barca que Atravessa Séculos e que atracou no Teatro Bernardim Ribeiro, em Estremoz.
- 13 de mar.
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No passado dia 7 de março, o palco do Teatro Bernardim Ribeiro acolheu uma nova apresentação de Auto da Barca do Inferno, texto maior do dramaturgo quinhentista Gil Vicente. Sob encenação de António Pires e interpretação da companhia Teatro do Bairro, esta produção — em circulação desde 2004 — demonstra de forma clara como um clássico pode permanecer vivo quando abordado com inteligência cénica, rigor técnico e uma sensibilidade contemporânea capaz de dialogar com os públicos de hoje.
A encenação de António Pires revela uma notável capacidade de equilíbrio entre tradição e reinvenção. Sem trair a essência moral e satírica do texto vicentino, a proposta cénica introduz um ritmo vivo e uma relação direta com a plateia, criando um espetáculo simultaneamente acessível e sofisticado. A cenografia funcional concebida por Fábio Paulo permite rápidas transformações espaciais, enquanto os figurinos de Rosário Balbi constroem uma estética híbrida que cruza referências históricas com elementos contemporâneos. Este diálogo visual reforça a intemporalidade do texto e sublinha a atualidade das críticas sociais de Gil Vicente. Momentos como a quebra da quarta parede — em que as personagens interagem diretamente com o público — ampliam a dimensão lúdica do espetáculo e tornam a experiência particularmente envolvente.
O elenco demonstra grande coesão e domínio técnico, evidenciando um trabalho coletivo sólido e bem estruturado. Ainda assim, dois intérpretes merecem um destaque especial. Rodrigo Machado, no papel do Diabo, assume o verdadeiro motor dramatúrgico da ação. Com forte presença cénica, grande domínio do espaço e uma energia contagiante, constrói um Diabo simultaneamente irónico, sedutor e teatral. A sua relação com o público é imediata e eficaz, tornando cada entrada em palco um momento de grande vitalidade performativa. Igualmente notável é o trabalho de André Ramos na composição do Frade. O ator constrói a personagem com grande precisão cómica, explorando o exagero gestual e vocal sem nunca perder o teor dramático. A sua interpretação conquista rapidamente a plateia, oferecendo um dos momentos mais memoráveis do espetáculo. Catarina Vicente, Mariana Branco, Mário Sousa e Rodrigo Oliveira completam o elenco com interpretações seguras e bem articuladas, contribuindo para um conjunto equilibrado e consistente.
Tecnicamente, a produção revela um cuidado particular. O desenho de luz de Rui Seabra cria atmosferas eficazes e sublinha as mudanças de tom da narrativa, enquanto o trabalho sonoro de Paulo Abelho acompanha o ritmo da encenação e reforça a dimensão dramática das cenas. O resultado é um espetáculo fluido, dinâmico e extremamente comunicativo, capaz de ultrapassar qualquer leitura meramente académica do texto.
Mais do que uma simples reposição de um clássico, esta encenação confirma como Auto da Barca do Inferno continua a funcionar como um poderoso espelho das fragilidades humanas. Ao assistir a atores tão bem preparados a dar corpo a personagens com mais de cinco séculos, torna-se evidente que o teatro, quando realizado com inteligência artística e verdadeiro compromisso interpretativo, permanece um dos meios mais eficazes para provocar reflexão e prazer estético. Foi, sem dúvida, uma tarde memorável em Estremoz, onde tradição e contemporaneidade se encontraram num espetáculo de grande qualidade. A encenação de António Pires merece particular elogio pela clareza dramatúrgica e pela capacidade de revitalizar um clássico sem o descaracterizar. Trata-se de uma produção que recomendo vivamente a qualquer público interessado em reencontrar a vitalidade do teatro português.

Ficha Técnica — Texto: Gil Vicente. Encenação: António Pires. Interpretação: André Ramos (Companheiro, Parvo, Frade, Cavaleiro), Catarina Vicente (Moço do Fidalgo, Moça do Frade, Brízida Vaz, Procurador, Cavaleiro), Mariana Branco (Anjo), Mário Sousa (Fidalgo, Sapateiro, Corregedor, Cavaleiro), Rodrigo Machado (Diabo), Rodrigo Oliveira (Onzeneiro, Judeu, Enforcado). Construção de cenário: Fábio Paulo. Figurinos: Rosário Balbi. Desenho de luz: Rui Seabra. Som: Paulo Abelho. Assistente de figurinos: Catarina Vicente. Produção executiva: Catarina Vicente. Administração de produção: Ana Bordalo. Assistência de produção: Pedro Deus. Comunicação: Catarina Vicente. Produtor: Alexandre Oliveira. Coprodução: Castelo de São Jorge. Produção: Ar de Filmes / Teatro do Bairro.




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