Encantar para resistir: atravessamentos de Curupira Ternura Selvagem.
- PALCO ALENTEJANO
- 21 de jan.
- 3 min de leitura

Há espectáculos que não apenas se assistem — encantam.
Curupira Ternura Selvagem co-produção das companhias Mente de Cão e Baileia, é um desses raros acontecimentos cénicos. Necessário, urgente e sensível, foi, sem exagero, um dos espectáculos mais belos que assisti em 2025.
Apresentado numa tarde marcada por uma chuva torrencial que caía sobre Montemor-o-Novo, o espectáculo acontecia como um abrigo poético dentro do teatro. Enquanto a água banhava a cidade, a cena instaurava outro tempo, um tempo de escuta, encantamento e resistência. A natureza, aliás, parecia dialogar com a obra: lá fora, a força bruta da chuva; cá dentro, a floresta evocada com delicadeza poética. O espectáculo foi inspirado em pensamentos e escritos de Ailton Krenak, António Bispo dos Santos (Nêgo Bispo), Nastassja Martin e Tatiana Salem Levy.
Desde o início, chama a atenção o carácter bilíngue da encenação, em português oral e em língua gestual portuguesa (LGP). Esta escolha não é acessória nem ilustrativa: estrutura a dramaturgia e amplia o campo sensorial do espectáculo. O mito do Curupira — guardião da floresta, figura ancestral do imaginário amazónico, é contado de forma poética através de duas camadas complementares: a oralidade e o gesto. Uma comunicação que não depende apenas da palavra, mas do corpo inteiro. O resultado é uma experiência inclusiva e esteticamente forte, pulsante, encantada.
O mito não surge aqui como narrativa folclórica domesticada, mas como uma história de encantamento, resistência e relação íntima com a natureza. O espectador é conduzido a uma verdadeira imersão sensorial na Amazónia, construída não pela ilustração literal, mas pela sugestão: sons, silêncios, respirações, movimentos e luz.
O olhar do eu-espectador é fisgado logo pela disposição da plateia. Somos convidados a entrar na cena, a sentar-nos próximos dos actores, quase misturados com eles, como se estivéssemos dentro da história — ou, melhor ainda, dentro da floresta. Esta proximidade cria uma relação de intimidade, dissolvendo as fronteiras entre palco e público e reforçando o carácter ritual da experiência.
Os elementos cénicos, que remetem à floresta, revelam uma construção extremamente cuidada. Há uma delicadeza material e simbólica que prende o olhar por longos minutos: nada parece excessivo, nada é gratuito. Cada objecto carrega uma intenção clara, convidando a contemplação e a escuta atenta.
A iluminação é um espectáculo à parte. Ora nos emociona, ora nos convoca à reflexão. Desenha atmosferas, sugere estados e reforça a urgência da mensagem: a protecção da floresta não é apenas tema, é pulsação constante da cena.
Os actores apresentam um trabalho sólido e rigoroso. Nota-se uma preparação vocal consistente e um intenso trabalho corporal, afinados com a proposta ritualística do espectáculo. Destaca-se, de forma especial, um dos actores, por ora não recordo o seu nome, mas é o actor que interpreta e conta histórias enquanto realiza simultaneamente a gestualidade da língua gestual portuguesa. Trata-se de um desafio de concentração, precisão e escuta — enfrentado com mestria e delicadeza por esse actor. O seu corpo torna-se linguagem plena, capturando o olhar do espectador a todo o momento.
Havia muitas crianças na plateia. Trata-se de um espectáculo que sabe comunicar com este público, e isso era visível: elas estavam atentas a cada palavra, a cada gesto. A mensagem chegava claramente à nova geração — é preciso reencantar o mundo, reflorestar o mundo.
“Curupira Ternura Selvagem” é mais do que um espectáculo: é um gesto político, poético, humano e não humano. Em tempos de devastação ambiental e silenciamentos históricos, a obra lembra-nos que proteger a floresta é também proteger outras formas de existir, comunicar e sentir. Sob a chuva de Montemor-o-Novo, o teatro cumpriu uma de suas funções: encantar para resistir.

Crítica por Iago de Melo




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