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Bonecos de Santo Aleixo: o Auto do Nascimento do Menino Jesus sob um olhar crítico.

  • Foto do escritor: Iago de Melo
    Iago de Melo
  • 18 de dez. de 2025
  • 5 min de leitura

Atualizado: 21 de dez. de 2025

Crítica teatral de Iago de Melo

 


No dia 16 de Dezembro de 2025, às 19h00, o Salão Nobre do Teatro Garcia de Resende, em Évora, acolheu o espetáculo Bonecos de Santo Aleixo – Auto do Nascimento do Menino Jesus, reafirmando a vitalidade de uma das mais singulares tradições do teatro popular português.

Logo à entrada no Salão Nobre, antes mesmo de qualquer gesto cénico, algo se impunha como acontecimento: a presença significativa de pais e mães acompanhados dos seus filhos. Em tempos em que as telas ocupam, de forma crescente, o quotidiano das crianças, ver famílias inteiras reunidas para assistir a teatro ao vivo constitui, por si só, um gesto cultural de enorme relevância. O teatro cumpre aqui uma das suas funções mais essenciais: unir pessoas no lugar de onde se vê para criar confluências.

As luzes apagam-se. O silêncio instala-se. Subitamente, uma batida de pé rasga o espaço, não como simples marca sonora, mas como um gesto de convocação para o encontro teatral. A encenação inicia-se e, com ela, emerge uma narrativa que perpassa pelos costumes, humor, musicalidade e referências da cultura alentejana. Para o espectador de fora, algumas expressões e códigos podem não ser imediatamente apreendidos; ainda assim, é revelador observar o povo alentejano no seu lugar de escuta, reconhecendo-se no que vê e ouve.

É neste ponto que o pensamento de Denis Guénoun (2004) se torna particularmente iluminador. Ao refletir sobre o privilégio do teatro face ao cinema, o autor sublinha que o teatro possui uma aptidão singular para a profundidade, a tridimensionalidade e o volume da relação entre palco e plateia, permitindo ao espectador um percurso do olhar feito de aproximações e afastamentos múltiplos. Ao contrário da imagem cinematográfica, fechada pelo enquadramento, o teatro oferece um campo aberto de perceção, onde o olhar escolhe, deriva e constrói sentido. Foi precisamente esse percurso que se desenhou ao longo desta apresentação dos Bonecos de Santo Aleixo.

Vi adultos a cantar canções do Alentejo, emocionados em momentos como a formação do presépio. Vi crianças a acompanhar cantigas, ligando-se intuitivamente a uma memória que talvez ainda não seja plenamente consciente, mas que já se inscreve no corpo. E vi também os afastamentos, quando as bombinhas artesanais rebentam de forma súbita, provocando um sobressalto coletivo, um despertar atento, quase defensivo, que ecoa na figura vigilante do Mestre Salas. Aproximação e distanciamento, emoção e alerta: o teatro em pleno funcionamento.

Um dos momentos mais reveladores acontece quase à margem da ação principal. Observei uma mãe apontar à sua filha pequena as sombras projetadas no teto do salão, sombras que denunciavam os atores a manipular as varas dos bonecos. Nesse gesto simples, mas significativo, instala-se a magia teatral: a criança percebe que está diante de uma encenação. A ilusão não é quebrada de forma abrupta, mas partilhada.

Aqui emerge claramente a metateatralidade, o teatro a mostrar-se enquanto teatro. As sombras revelam o artifício, lembrando-nos que estamos num espaço de representação. Este distanciamento reaparece também quando as personagens interagem diretamente com a plateia, chamando espectadores pelo nome ou lançando perguntas.

A materialidade dos bonecos reforça ainda mais a leitura dramatúrgica e cénica do espetáculo. Os títeres, realizados em madeira e cortiça, são vestidos com um guarda-roupa cuidadosamente concebido, que permite, à semelhança do teatro naturalista, podendo ir ao encontro da imediata identificação das personagens da fábula contada. O figurino não funciona apenas como elemento decorativo, mas como verdadeiro código narrativo, orientando o olhar do espectador e facilitando a leitura da ação, sobretudo para o público infantil.

O lugar de representação — o retábulo — surge como um palco em miniatura, construído em madeira e tecidos floridos, com pano de boca, cenários pintados em papelão e iluminação própria. Este dispositivo cénico não é apenas um suporte técnico, mas um verdadeiro organizador do olhar, concentrando a atenção do público e estabelecendo uma relação de grande proximidade com a plateia.

Os Bonecos de Santo Aleixo são títeres de varão, manipulados por cima, à semelhança das grandes marionetas do sul de Itália e do norte da Europa. Sete atores dão corpo a este universo, realizando em cena a troca constante de personagens, num exercício de precisão, ritmo e escuta coletiva. Essa alternância exige uma coordenação rigorosa e evidencia o carácter artesanal e coletivo deste teatro, onde a destreza técnica está sempre ao serviço da narrativa.

A troca de personagens acontece de forma fluida, quase invisível, reforçando a ilusão cénica, mas sem nunca esconder totalmente o artifício — num equilíbrio delicado entre tradição, técnica e consciência teatral. O que se revela, no final, é um teatro que se constrói diante dos nossos olhos, sustentado por uma prática continuada e por um saber transmitido entre gerações.

A interpretação constitui um dos pilares centrais do espetáculo. Ana Meira, Carolina Pequito, Gil Salgueiro Nave, Isabel Bilou, José Russo e Vítor Zambujo demonstram bastante destreza na manipulação dos bonecos. A qualidade vocal, o rigor rítm

ico e a clareza interpretativa confirmam intérpretes profundamente conhecedores do ofício teatral. É particularmente comovente assistir a este encontro entre gerações em palco, onde diferentes percursos se unem por um desejo comum: fazer teatro!

A sonoplastia afirma-se como um verdadeiro espetáculo à parte. O acompanhamento musical, assegurado por Gil Salgueiro Nave e David Russo, confere à encenação uma espessura sensível e identitária. A música ao vivo, com destaque para a guitarra portuguesa, conduz-nos pelos caminhos da pequena Santo Aleixo, evocando memórias de uma região que respira cultura, trabalho e resistência. As canções do imaginário alentejano, funcionam como espaço de comunhão entre palco e plateia, fundindo-se de forma exemplar com as vozes dos intérpretes e conduzindo o público a momentos de verdadeiro deleite.

A iluminação, assegurada pela tradicional candeia de azeite, coloca-nos num lugar intimista e pouco habitual no teatro contemporâneo. Assistir a um espetáculo com este tipo de iluminação é aceitar um convite a sair do lugar tradicional do espectador. Somos chamados a perceber a cena através de uma outra óptica, mais próxima, mais sensível. A luz constrói um espaço poético, quase ritual, reforçando a dimensão simbólica do retábulo e, por vezes, revelando os próprios mecanismos da cena.

Enquanto crítico de teatro, interessa-me observar a dramaturgia tanto a partir do seu valor tradicional como à luz do presente. Durante a apresentação, tornou-se inevitável questionar se a dramaturgia dos Bonecos de Santo Aleixo — preservada com notável rigor histórico — não poderia acolher pequenos gestos de actualização, sobretudo no plano da linguagem. Algumas palavras e expressões, bem como a própria construção do boneco “pretinho torto”, personagem que, no interior da peça, assume a função de transmitir recados, são hoje reconhecidas como problemáticas e poderiam ser neutralizadas, contextualizadas ou, pelo menos, mediadas, tendo em conta a expressiva presença de crianças e de pessoas pretas na plateia.

Os textos tradicionais, originalmente transmitidos exclusivamente por via oral, chegaram até nós através de sucessivas gerações de bonecreiros. Essa transmissão contínua resulta numa dramaturgia que perpassa pela cultura popular e escrita erudita, onde convivem sátira social, religiosidade, humor e crítica. O valor desses textos reside precisamente nessa complexidade híbrida, mas é também aí que se abre espaço para uma reflexão crítica sobre a sua receção atual.

Não se trata de deslegitimar o valor artístico, histórico ou patrimonial do espetáculo. O meu papel, enquanto crítico e profissional de teatro, não é condenar, mas tecer reflexões. Se aspiramos a uma sociedade mais justa, plural e igualitária, é fundamental reconhecer que determinadas palavras já não são neutras. Informar explicitamente o público de que se trata de uma dramaturgia histórica, que preserva textos de outra época e que não reflete necessariamente os valores contemporâneos, não enfraquece a dramaturgia. Pelo contrário, fortalece-a, tornando-a consciente, responsável e capaz de continuar a dialogar com novas gerações.

O Auto do Nascimento do Menino Jesus, apresentado no Salão Nobre do Teatro Garcia de Resende, afirma-se assim como um acontecimento teatral de grande representatividade, uma das expressões mais singulares, vivas e necessárias do teatro português.

 

Referência

Guénoun, D. (2004). O teatro é necessário? (F. Saadi, Trad.). São Paulo, SP: Perspectiva.


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