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Estar inacabado assusta? Um radar 360 sobre corpos, erros e circo contemporâneo.

  • Foto do escritor: PALCO ALENTEJANO
    PALCO ALENTEJANO
  • 9 de jan.
  • 4 min de leitura




Eram 11:00 horas da manhã do dia 20 de novembro de 2025. Em Montemor-o-Novo, dirigi-me ao Jardim do Mercado Municipal e, no meio de uma praça pública, integrado num mercado de Natal, avistei algo que parecia ser uma estrutura insuflável cinzenta, de aspecto futurista. Essa estrutura irrompia no espaço e despertava imediatamente a curiosidade das crianças e de todos os que por ali passavam. Aproximar-me tornou-se inevitável: havia algo naquele objeto deslocado do quotidiano que convocava o olhar e o corpo para fora da rotina.

Tal como acontecia com os saltimbancos dos espetáculos de variedades, historicamente presentes nas feiras e mercados europeus dos finais do século XIX e princípios do século XX, o espetáculo de circo contemporâneo INACABADOS, da Companhia (Cia) Radar 360, aconteceu ali, em plena praça pública.

Desde o início, tornou-se evidente que se tratava de um espetáculo atravessado por temáticas sociais integradas na dinâmica da cena. As reflexões chegavam a todos os públicos, sem hierarquias de entendimento. O espetáculo comunicava tanto pelo riso como pelo estranhamento, tanto pela força da imagem como pelas ações performativas.

As cenas impactavam, sobretudo, pela constante transformação dos cenários, que se desmontavam e se reorganizavam diante dos nossos olhos. Tal como no circo, onde a magia sempre foi um convite ao assombro, ali a magia acontecia de outra forma. A verdadeira ilusão estava em fazer-nos pensar: sobre o sistema dominante, a lógica da produtividade incessante, o corpo humano transformado em engrenagem funcional e a proximidade cada vez maior entre o homem e a máquina. Pensar sobre estarmos inacabados.

Os macacos transitavam entre funções — ora como contrarregras visíveis, ora como parte ativa da dramaturgia — reforçando a ideia de que tudo se encontrava em permanente instabilidade. Nada se fixava. Remetiam à teoria da evolução de Darwin, sob a perspetiva de que continuamos em transformação e, portanto, não estamos acabados.

A Boneca Mecânica, figura futurista e eixo dramatúrgico do espetáculo, conduzia o público através de perguntas diretas: “De que são feitos os sonhos? Qual é a matéria-prima? Quantas vezes sonhas por dia? Sonhas acordado?” A interação rompia qualquer distância confortável. A sua voz mecanizada fazia ecoar uma questão central: quem está em transformação?

A personagem é interpretada por Julieta Rodrigues, que assina também a dramaturgia e o figurino da criação, concentrando na mesma figura a palavra, o corpo e a construção estética do espetáculo.

A cama — símbolo do sonho, do descanso e da repetição quotidiana — era progressivamente desconstruída. A iluminação, construída a partir de diferentes efeitos luminosos e suportes, inseria os espectadores numa atmosfera que oscilava entre o plano onírico e o plano real.

O espetáculo dialogava com o teatro físico, onde o corpo se assumia como principal suporte de comunicação. Em algumas cenas, a metamorfose surgia de forma explícita: um corpo híbrido, memórfico, feito de penas, pele e matéria indefinida. Após essa transformação, alteravam-se o movimento e a lógica corporal, como se assistíssemos ao nascimento de outra espécie.

O palhaço, ressignificado, mantinha a sua essência cómica e a relação direta com a plateia, herança das comédias de rua, mas assumia também um peso crítico. O guarda-roupa criava uma ponte entre o universo dos saltimbancos, o contemporâneo e o futurista, reforçando o diálogo entre tradição e projeção do futuro.

A reflexão avançava para a relação homem-máquina e máquina-homem, para o trabalho transformado em rotina e para a rotina que engole o humano. A Boneca Mecânica questionava: os humanos podem falhar? Falhaste alguma vez? Aceitas a tua falha? Aqui, o espetáculo afirmava com clareza que o erro é um portal para a descoberta. Em oposição a um sistema que exige eficiência constante, INACABADOS reivindicava o direito ao tropeço.

A máquina de lavar surgia como metáfora contundente dessa crítica social: girava, repetia, normalizava, padronizava — um sistema que lava até apagar as singularidades.

Entre números de magia, ilusionismo, acrobacias e surpresas, surgiam também figuras de super-heróis — Homem-Aranha e Capitão América — que questionavam os modelos contemporâneos de poder, força e salvação.

No final, o embate entre o animal e o racional impunha-se. O animal que dominava a razão revelava também a sua ambição: dominar, possuir, construir impérios, afirmar que “o meu é melhor do que o teu”. A crítica era direta e necessária: os impérios também são inacabados.

Foi um dos melhores espetáculos a que assisti em 2025. Destaco o notável trabalho da direção artística de António Franco de Oliveira, cuja criação não se limita ao riso pelo riso, mas assume um compromisso com uma cena atravessada pela reflexão, capaz de comunicar com públicos de diferentes idades.

Os intérpretes — Ana Rita Xavier, Julieta Rodrigues, André Araújo e Pedro Matias — revelaram uma qualidade excecional. Corpos expressivos e narrativos, com boa dicção, consciência corporal, coordenação, concentração e criatividade, evidenciavam um treino que ultrapassa o mero desenvolvimento da força física.

Em plena praça pública, INACABADOS transformou o espaço comum num lugar de reflexão coletiva. Um espetáculo que não ofereceu respostas prontas, mas ações abertas a múltiplas leituras. Uma criação que não temeu o erro, a falha e a incompletude. Porque, no fim, estar inacabado é uma forma de resistência.


Crítica por Iago de Melo

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