"Aceita Que Dói Menos": A Revista à Portuguesa Mais Viva do que Nunca!
- 23 de mar.
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Estive em Estremoz na estreia, no passado dia 25 de janeiro, pelas 15h, no Teatro Bernardim Ribeiro, e o que presenciei foi uma celebração autêntica da identidade lusa. Assistir às "Velhas Gaiteiras" da Academia Sénior de Estremoz é muito mais do que um momento de lazer; é testemunhar a resistência cultural de um coletivo que, com maestria e uma jovialidade contagiante, mantém viva a chama da sátira social. Sob a encenação de Marisa e António Serrano, o espectáculo apresenta-se com uma qualidade que transcende o amadorismo, revelando vozes muito bem preparadas e um domínio de palco que faz o povo alentejano sorrir. É uma produção onde vemos atrizes e atores despidos de qualquer medo de falar o que pensam, o que gostam e o que desejam, satirizando a vida e partilhando com o outro o prazeroso jogo de fazer teatro. Por vezes, é impossível manter o distanciamento do crítico; vi-me rendido ao lugar de espectador, rindo das ações e dos desdobramentos de um enredo que utiliza o riso como ferramenta de reflexão e esperança. É, sem dúvida, o grito de um teatro feito por quem ama a arte e tem muito para contar ao mundo.
O espetáculo destaca-se por uma plástica singular, onde os figurinos de diferentes cenas, elaborados com um rigor que remete às grandes revistas de outrora, dialogam harmoniosamente com a tradição da Revista à Portuguesa. Na ausência de cenários grandiosos ou estruturas movimentadas pelos atores, os encenadores recorrem à tecnologia, utilizando projeções como um recurso inteligente que ambienta o espectador sobre o local da ação. A sucessão de quadros e a interpretação de canções icónicas criam uma atmosfera de cumplicidade intergeracional. É notável o crescimento destas artistas, Ana Troncho, Bia Ramos, Luzia Banha e todas as restantes, que, cada vez mais desinibidas, provam que o palco é um lugar de pertença. A quebra da quarta parede ocorre em diversos momentos, com os atores a interagir e a brincar diretamente com o público, tornando a experiência orgânica e envolvente.
Este projecto da Academia Sénior de Estremoz é algo grandioso para a contemporaneidade, executado com uma qualidade pouco vista em produções que se arriscaram ao género nos últimos anos. Um dos momentos mais memoráveis é o "The Voice Gaiteiras"; nesse instante, despojei-me da análise técnica e confesso que há muito não ria tanto. É a prova de que a revista é uma cultura que permanece viva, capaz de conectar o teatro de outrora com as inquietações do presente através da alegria. Trata-se de um espetáculo necessário, que tem de continuar e ser visto por todo o Portugal! Reafirma que a arte é uma fonte de jovialidade que permite olhar para o futuro com a mesma esperança de quem está na "flor da idade". É, sem dúvida, uma obra que dignifica o palco e a própria vida.




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