Cinco Séculos depois: A Barca que o Tempo não Afunda.
- 23 de mar.
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Assistir a Embarcação do Inferno é mergulhar numa lição de perenidade teatral. Esta coprodução entre o CENDREV e A Escola da Noite, sob a encenação de António Augusto Barros e José Russo, constitui um espectáculo que merece todos os prémios do teatro português. É algo grandioso para a contemporaneidade: uma dramaturgia com mais de 500 anos que ainda encerra reflexões atemporais, aqui ressignificadas por um colectivo que o executa com mestria e com uma qualidade técnica e artística raramente vista em produções que, nos últimos anos, se arriscaram a fazê-lo na Europa. O facto de este colectivo manter o espectáculo em cena há 10 anos prova que o teatro português de outrora pode, efetivamente, conectar-se com o presente. O elenco revela uma excelência técnica notável, com atores a desdobrarem-se em múltiplas personagens com uma fluidez que sublinha a universalidade dos vícios humanos, equilibrando a moralidade medieval do Bem e do Mal com a inquietação renascentista.
A cenografia de João Mendes Ribeiro e Luísa Bebiano afirma-se como um triunfo do minimalismo funcional. Destaco aqui a utilização inteligente de escadas, suportes e bancos de madeira que se ressignificam em cena, o espaço do “porto”, no momento do Juízo Final, transforma-se constantemente: o que, num momento, é o cais da indecisão, no outro torna-se a estrutura das próprias barcas. Esta austeridade material é ricamente contrastada com o guarda-roupa de Ana Rosa Assunção, cuja delicadeza e rigor revelam uma sofisticação ímpar. Os figurinos retratam com precisão o período de transição entre a Idade Média e o Renascimento, recorrendo a uma paleta cromática que remete, de forma fidedigna, para essa época e que, do ponto de vista estético, confere ao espetáculo uma notável harmonia visual.
O trabalho de caracterização surge como o toque à parte nesta engrenagem de precisão. A maquilhagem, operando como uma “segunda máscara” no rosto dos intérpretes, articula-se com o uso de máscaras físicas para acentuar o carácter arquetípico e quase sobrenatural das figuras que aguardam o veredito eterno. Este jogo entre o oculto e o revelado intensifica a carga satírica da obra, permitindo que os temas do “Ter” e do “Poder”, bem como os questionamentos dos dogmas religiosos, emerjam de forma heterodoxa e provocadora. Compreende-se que se trata de um espectáculo assente numa investigação singular, em que cada elemento visual concorre para demonstrar que a sensibilidade de um autor de há cinco séculos, pela mão qualificada de encenadores e diretores portugueses contemporâneos, continua capaz de apurar o olhar sobre as misérias e virtudes da condição humana.
FICHA TÉCNICA:
Texto: Gil Vicente | Encenação: António Augusto Barros e José Russo | Interpretação: Ana Meira, Igor Lebreaud, Jorge Baião, José Russo, Maria Marrafa, Miguel Magalhães, Ricardo Kalash, Rosário Gonzaga (os atores Maria João Robalo, Rui Nuno e Sofia Lobo fizeram também parte do elenco) | Cenografia: João Mendes Ribeiro, Luísa Bebiano | Figurinos, bonecos e imagem gráfica: Ana Rosa Assunção | Música: Luís Pedro Madeira | Desenho de luz: António Rebocho | Consultadoria científica: José Augusto Cardoso Bernardes | Consultadoria de esgrima: Henrique Guerra | Assistência de encenação: Sofia Lobo | Direção de montagem: António Rebocho, Rui Valente | Operação de luz e som: António Rebocho, José Diogo | Direção de cena: Miguel Magalhães | Fotografia: Carolina Lecoq, Eduardo Pinto, Paulo Nuno Silva | Construção e Montagem de Cenário: António Rebocho, Carlos Figueiredo, Paulo Carocho, Tomé Antas, Tomé Baixinho | Execução De Figurinos: Maria Do Céu Simões | Produção Executiva: Cláudia Silvano, Pedro Rodrigues.




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