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Máscaras, Vozes e Estilhaços: Um Encontro com Müller no Cineteatro Curvo Semedo.

  • 13 de mar.
  • 3 min de leitura



No Cineteatro Curvo Semedo, em Montemor-o-Novo, o ar parecia carregar o peso de três décadas de ausência e a urgência de uma memória que se recusa a ser estática. Assistir a Vidro Pantera – Estilhaços de Heiner Müller, no âmbito da Festa do Teatro, revelou-se muito mais do que uma mera efeméride pelos trinta anos da morte do dramaturgo alemão. A cocriação entre a Alma d'Arame e o Teatro de Ferro propõe uma arqueologia poética que não tenta colar os fragmentos de Müller, mas sim deixar que os seus gumes cortem a nossa perceção através de uma travessia fragmentária e visual.

Desde os primeiros instantes, a encenação afirma-se pela aposta num universo cénico em permanente metamorfose, onde os objetos se recusam a ser meros adereços. Há uma vitalidade quase biológica na forma como a matéria é tratada: o que surge inicialmente como capas de chuva suspensas — evocando presenças humanas vazias, como sombras ou fantasmas de uma história coletiva — rapidamente se transfigura em vestuário ou em prolongamentos do corpo dos atores. Este reaproveitamento inteligente não é apenas um recurso estético, mas um diálogo constante que reforça a ideia de fragmentação e recomposição que atravessa toda a dramaturgia de Müller. A cenografia, nesse sentido, merece um aplauso particular pela sua capacidade de ressignificação, construindo uma continuidade visual que guia o espectador por entre o caos organizado do texto.

A esta mestria visual junta-se um trabalho de preparação vocal que se destaca no panorama contemporâneo. Numa época em que a palavra é, por vezes, relegada para segundo plano ou enunciada sem espessura, os intérpretes de Vidro Pantera apresentam uma clareza e uma projeção notáveis. Aqui, o texto é verdadeiramente mastigado e compreendido; não se limita à verbalização, mas percorre os corpos dos atores, molda o ritmo das cenas e sustenta uma intensidade dramática que mantém o público em constante estado de alerta. É a palavra de Müller a ganhar carne, transformando o pensamento denso do autor numa experiência sensorial direta.

A camada simbólica do espetáculo atinge o seu auge com a utilização das múltiplas máscaras do dramaturgo. Ao multiplicar o rosto de Müller através dos atores, a encenação cria a sensação de que o autor continua a habitar aquele espaço, desdobrando-se em diferentes corpos e vozes como uma consciência omnipresente. Este impacto é reforçado pela aparição de uma peça escultórica colossal — uma grande cabeça do dramaturgo de um realismo impressionante — que ancora o olhar e materializa a sua presença em cena. É um gesto inventivo que prepara o terreno para a sensível manipulação de bonecos, onde Müller parece ser colocado frente a frente consigo próprio, dialogando com os seus próprios textos numa dimensão poética e metateatral.

Vidro Pantera – Estilhaços de Heiner Müller revela-se, assim, uma criação rica e densa, onde o teatro e a interpretação vocal de excelência se fundem com precisão. Mais do que uma homenagem póstuma, o que se viu em Montemor-o-Novo foi um verdadeiro encontro de fôlego entre a inquietude de um dos maiores autores do século XX e o vigor do teatro português de hoje. É um espetáculo que ressoa muito depois do cair do pano, provando que a poética de Müller, quando tratada com esta entrega, continua a ter a força de um estilhaço que nos obriga a olhar para as ruínas do mundo com olhos novos.



Ficha Artística e Técnica

Textos: A partir de Heiner Müller

Encenação: Igor Gandra

Cenografia: Amândio Anastácio

Música: Carlos Guedes

Apoio à Dramaturgia: Miguel Ramalhete Gomes

Multimédia: Luís Grifu

Desenho de Luz: Amândio Anastácio e João Sofio

Vídeo: LoTA Gandra

Realização Plástica: Eduardo Mendes

Acompanhamento Artístico: Carla Veloso

Interpretação: Guilherme Vieira, Mariana Ferreira, Matilde Gandra, Rui Oliveira

Cantora: Catarina Perdigão

Oficina de Construção: Eduardo Mendes, Catarina Falcão, Igor Gandra, Amândio Anastácio, Ana Catarina Silva (figurino das marionetas)

Comunicação: Raquel Cunha e Pedro Maia

Cocriação e Produção: Teatro de Ferro e Alma d’Arame

Coprodução: Teatro Municipal de Faro

Filme Realização: LoTA Gandra e Igor Gandra

Argumento: A partir de “A Sagrada Família” (Germânia Morte em Berlim) de Heiner Müller

Interpretação: Diana Sá, Filipe Moreira, Igor Gandra, Guilherme Vieira, Matilde Gandra, Mariana Ferreira, Rui Oliveira, Carlota Gandra e Catarina Perdigão

Assistência de Realização: Catarina Lopes

Direção de Arte: Igor Gandra, Amândio Anastácio e Eduardo Mendes

Efeitos Especiais: Júlio Alves

Desenho de Luz: Mariana Figueroa

Direção de Produção: Carla Veloso

A Alma d’Arame e o Teatro de Ferro são estruturas financiadas pela República Portuguesa / Cultura, Juventude e Desporto, Direção-Geral das Artes.




 
 
 

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